Investindo em ações no longo prazo

Olá,

Após o (negativo) impacto da leitura de Axiomas de Zurique, deparo-me com uma aula sobre investimentos.

Investindo em ações no longo prazo, de Jeremy Siegel, traz tudo o que se espera de um bom livro sobre finanças: Informações embasadas, extensivamente verificadas e estudadas; análises imparciais sobre os fatos da história, mostrando as conclusões sensatas de um estudioso e profundo conhecedor do assunto. É um livro pra ter em casa, que pode ser consultado sempre que preciso. Há algumas partes em que uma primeira leitura não trará todo o entendimento, como no capítulo sobre futuros de índices e opções, por exemplo, mas é um excelente livro.

Vou comentar alguns capítulos principais. Um resumo do resumo, pois a riqueza de informações é grande, mas você pode ter uma ideia do que vai encontrar ao lê-lo.

Retorno das ações: Passado, presente e futuro

O autor começa o livro comparando o retorno reais obtidos em ações, títulos, letras (que são títulos americanos de curto prazo), ouro e dólar nos Estados Unidos, entre 1802 e 2012.

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Comparação entre ações (Stocks), Títulos (Bonds), Letras (Bills), ouro e dólar nos EUA, entre 1802 e 2012.

Nas palavras do autor:

Nenhuma outra classe de ativos – títulos, commodities ou dólar – exibe a estabilidade de retornos reais de longo prazo demonstrada pelas ações.

O retorno anual composto das ações é notavelmente superior ao retorno dos títulos, ouro ou dólar.

A estabilidade de longo prazo dos retornos das ações persistiu, não obstante as drásticas mudanças ocorridas em nossa sociedade nos dois últimos séculos. O país passou da economia agrícola para a economia industrial e, depois, para a atual economia pós-industrial, de tecnologia e de serviços. O mundo mudou do padrão-ouro para o padrão papel-moeda. E as informações, que antes levavam semanas para atravessar o país, agora podem ser transmitidas instantaneamente (…). Contudo, a despeito das enormes mudanças nos fatores básicos que geram riqueza para os acionistas, os retornos das ações revelaram uma estabilidade surpreendente.

Embora seja dada ênfase ao mercado americano, seu estudo e as suas conclusões podem ser estendidos a muitos outros países. E de fato ele assim o faz. Veja a figura abaixo:

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Retorno anual em 16 países para ações (equities), títulos (bonds) e letras (bills)

Para 16 países, desde 1900, o retorno real das ações foi maior em TODOS (infelizmente a republiqueta Brasil não foi analisada… na verdade, o Brasil só é citado uma vez no livro, salvo engano, quando ele cita países que entregaram altos retornos aos seus acionistas, mas a citação é breve).

No longo prazo, ações são menos arriscadas do que os títulos

Se você quer acumular patrimônio, o investimento em ações pode ser recompensador. Veja essa figura do capítulo 6.

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Maiores e menores retornos reais em ações, títulos e letras em intervalos de 1, 2, 5, 10, 20 e 30 anos.

No curto prazo, as ações são mais arriscadas. Os retornos variam mais. Na medida em que o horizonte de tempo se estende, o cenário muda. Entre 1802 e 2012, em prazos de cinco anos, o pior período acionário foi um pouco pior do que o dos títulos de longo prazo. Em prazos de 10 anos, as ações tem em seu pior período um desempenho superior ao dos títulos. Em períodos de 20 ou 30 anos de investimento, não houve rentabilidade negativa para as ações, diferente dos títulos.

A crise de 2008

Na versão mais atual do livro, Jeremy Siegel faz uma análise bem detalhada e bem elucidativa sobre os motivos que levaram à crise de 2008.

Interessante a análise que ele faz sobre a grande moderação. A causa da Grande Recessão, como é chamada a crise de 2008, foi a “Grande Moderação”, nome dado ao período econômico longo e estável que precedeu a recessão.

A volatilidade do mercado caiu cerca de 50% entre 1983 e 2005. Com isso, prêmios de risco diminuíram sensivelmente, pois acreditava-se que o banco central americano poderia intervir, em qualquer situação, sobre a economia, estabilizando eventuais crises.

A década de 1920, que precedeu a crise de 1929 e a “Grande Depressão”, mostrou, também, uma estabilidade econômica incomum, com a crença também disseminada entre economistas da época de que seriam sempre salvos pelo Banco Central, criado na década anterior.

Períodos de grande estabilidade diminuem os prêmios de risco de ativos financeiros, aumentando o apetite dos investidores por ativos de maior risco. Isso faz com que diminuições da atividade econômica afetem mais gravemente os tomadores de empréstimo altamente alavancados, que tem pouca proteção em um declínio do mercado. Logo, em 2008, bastou o declínio do mercado imobiliário para que toda a economia desmoronasse, pois estava muito alavancada em ativos supostamente seguros, mas que embutiam grande risco de inadimplência.

Mais adiante, ele comenta sobre as Hipotecas Subprime, e como elas acabaram integrando o balanço patrimonial de instituições financeiras grandes e altamente alavancadas. Um aspecto interessante a se destacar é que, diferentemente da crise de 1929, em que o Banco Central Americano não interviu de forma contundente para segurar o mercado, gerando uma crise sem precedentes, na crise de 2008 houve uma participação ativa do FED no enfrentamento da crise. Obviamente que as conjunturas eram diferentes. O padrão-ouro à época não permitia ao FED prover a liquidez que o mercado precisava.

Índices ponderado pelo preço, pelo valor e índices ponderados fundamentalmente

Interessante a análise do capítulo 7, sobre alguns índices americanos. O índide Dow Jones, o DJIA – Dow Jones Industrial Average – é um índice ponderado pelo preço das ações. Criado em 1896, englobava 12 empresas. Ele é simplesmente a soma do preço das ações componentes divididos pelo número de empresas do índice. Houve alguns ajustes ao longo dos anos, mas a ideia do índice é essa. Por esse motivo, movimentos em empresas de ações com preços altos impactam bastante o índice, independentemente do tamanho da empresa.

Em 1918, a Standar Statistics Co. começou a publicar o primeiro índice de valor das ações com base no desempenho ponderado pelo valor de mercado de cada empresa. Em 1957, tornou-se o S&P 500. Esse índice tornou-se mundialmente conhecido e é utilizado por diversos fundos. O IVVB11, ETF disponível na Bovespa, baseia-se nesse índice.

Em outra parte do livro, é apresentado um novo tipo de índice, o qual baseia-se em indicadores dos fundamentos das empresas, tais como Lucro. São os índices ponderados fundamentalmente. Eles são particularmente interessantes em períodos em que há “bolhas”, onde os preços das ações chegam a valores incrivelmente altos, não refletindo os reais fundamentos das empresas. O primeiro ETF ponderado fundamentalmente foi lançado em 2005, FTSE RAFI US1000, que acompanha um índice criado pela Research Afiliates o qual baseia-se em vendas, fluxo de caixa, valores contábeis e dividendos.

Curiosidade: E o IBOV?

Falando do nosso velho conhecido IBOV, ele é um índice ponderado pelo valor de mercado, tal como o S&P 500. Contudo, grandes empresas representam a maior fatia do índice, o que faz com que ele não represente o mercado de maneira eficiente tal como o S&P 500.

Fazendo uma aproximação rápida, olhando as ações que compõem o IBOV, vemos que Bradesco (9%), Itaú (15%), Petrobrás (9%) e Vale (10%) já detêm cerca de 40% do índice. Isso não representa o mercado Brasileiro.

Fontes de valor para os acionistas – Lucros e dividendos

No capítulo 10, o autor discorre sobre as duas fontes de valor para os acionistas: Lucros e dividendos.

Lucros são a fonte de fluxo de caixa para os acionistas. E isso é feito ou através do pagamento de dividendos ou através da retenção de parte dos lucros, que podem ser usados para

– resgate de dívidas;

– investimentos em títulos ou outros ativos;

– investimentos em projetos de capital;

– recompra de ações.

Historicamente, podemos constatar que o aumento dos lucros reflete diretamente na cotação das ações, ou seja, para que o acionista (principalmente o minoritário), obtenha bons retornos, é preciso estar sempre atento à capacidade da empresa de ter lucros consistentes com o passar dos anos. No artigo sobre análise fundamentalista eu apresento vários gráficos que corroboram isso.


Não vou me estender muito mais. O livro tem muito material de grande valor, e em outros artigos vou abordar mais assuntos. Por ora, a mensagem que fica de Jeremy Siegel é que a obtenção de bons retornos em ações exige um foco de longo prazo e uma estratégia de investimento disciplinada.

De acordo com o autor:

A principal tese deste livro, de que as ações representam a melhor forma de acumular riqueza a longo prazo, continua tão verdadeira no presente quanto era na época em que publiquei a primeira edição deste livro, em 1994.

Um abraço e bons investimentos!

Melhorar sua vida financeira só depende de você!

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