Ricardo Semler e o “Você Está Louco”

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Olá,

No condomínio onde eu moro, há um salva-vidas que está sempre lendo. É o Ronaldo. É compreensível que ele tenha tempo livre. Afinal, há dias em que ele não vê uma viva alma naquela piscina (e foi ainda pior no último inverno com o aquecimento quebrado!). Então, ele está aproveitando o tempo livre da melhor forma, adquirindo conhecimento.

Há algumas semanas, ele me falou sobre um livro de um empresário brasileiro que o deixou fascinado. Ele não lembrava o nome, mas foi descrevendo algumas histórias. Eu não consegui associar o que ele falava a nenhum empresário de que eu tinha ouvido falar.

Perguntei se ele se importava de me emprestar o livro. No dia seguinte ele trouxe e me entregou. O nome do livro: Você está louco!. Autor: Ricardo Semler. Eu não o conhecia (o que mostra o quanto eu tenho de aprender sobre empreendedorismo, grandes empresários do Brasil etc.).

Você conhece Ricardo Semler?

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Ricardo Semler é um empresário brasileiro, que assumiu a empresa criada por seu pai, Semco, transformando-a numa grande empresa, com milhares de funcionários e atuação em diversas áreas. No “Você está louco!”, o terceiro livro que ele escreveu, ele conta um pouco da sua história desde os tempos de roqueiro adolescente até a empreitada de grande sucesso na Semco.

Empreendedorismo precoce

Já no início do livro, ele compartilha com os leitores sua história precoce de empreendedorismo, quando estava buscando assumir uma posição de maior relevância na empresa criada pelo pai, a Semco (nome que leva as iniciais de Semler e Company). Ele tinha vinte e dois anos. Dadas as negativas do principal acionista, Semler resolveu ir atrás de algo próprio.

Começou a usar seus contatos para buscar empresas que fossem boas, que tivessem potencial, mas estivessem atravessando dificuldades. Queria comprar alguma empresa e fazê-la crescer. Pesquisou diversas e acabou chegando numa fabricante de escadas. Sem dinheiro, correu atrás de fornecedores, bancos, negociou com funcionários, com o dono da empresa, buscou assessoria jurídica, enfim, mergulhou de cabeça no negócio. Estava prestes a assinar o contrato de compra da empresa (por um dólar, assumindo uma dívida bem grande), quando seu pai adentrou à sala de reunião onde estavam, chamou advogados e perguntou quanto seria a multa pelo cancelamento. US$ 200.000. O pai de Ricardo ofereceu a ele 51% da Semco se ele desistisse do negócio. Depois de pensar um pouco, Ricardo aceitou a proposta do pai. A multa fio paga, o negócio desfeito e Semler conseguiu o controle da empresa.

Daquele momento em diante, a Semco começaria uma trajetória de crescimento incrível. A empresa atuava no ramo naval, fabricando bombas para navios. Semler passou a expandir a área de atuação da empresa, pesquisando novas tecnologias, novos nichos. A empresa cresceu algumas dezenas percentuais ano após ano. Atualmente, foi criada a Semco Partners, que oferece a empresas e investidores estrangeiros a possibilidade de entrar em mercados brasileiros contando com a experiência de quem já faz negócios por aqui há décadas.

Os três “por quê”s

Ricardo é mais um grande empresário brasileiro, daqueles que não se contenta com o senso comum, que busca respostas diferentes para os problemas. Foi alguém que assumiu um legado sim, mas que o transformou, o reconstruiu, dando para a empresa do pai a sua cara, com a gestão participativa (funcionários da semco possuem poder de decisão de fato), programas inovadores como o aposente-se mais cedo, que cede as quartas-feiras aos funcionários em troca de 10% do salário, redes nas fábricas, pátios coloridos, participação nos lucros etc.

Um dos fundamentos da cultura Semco é o uso do método dos três “por quê”s. Pense numa criança: Quando ela lança o primeiro “por quê?”, o adulto começa a se valer dos clichês e respostas prontas. No segundo “por quê?”, as respostas prontas, padronizadas, perdem sentido e você é obrigado a pensar melhor sobre aquilo. No terceiro “por quê?”, você pega 10 reais e fala pra ela ir comprar um sorvete 🙂 .

Eles usam isso para confrontar ideias. Se um ideia passa pelo teste, significa que ela tem fundamento e pode ser levada a frente, senão é descartada.

Viagens

Semler compartilha com os leitores algumas viagens incríveis que fez. Como já tenho aprendido com o relato de outros grandes empresários, o que mais marca a vida deles, mesmo com grandes quantias de dinheiro, são as experiências vividas. Jorge Paulo Lemann diz que a adrenalina que ele sentiu numa onda gigante que pegou em Copacabana é o que ele mais lembra e o que mais o marcou na vida. Dificilmente ele terá outra sensação como aquela.

Semler fez a Caravana do sal. Foi de dromedário, na primeira e na última semana da caravana, que dura 32 dias. Ali aprendeu, entre outras coisas, sobre a passagem do tempo. Nas suas palavras:

Mais do que aprender a deixar o tempo imperar a seu modo, aprendi que a terra e seus habitantes são parte de um processo, sem início ou fim claros (…) centenas de vezes depois, em situações pessoais ou de negócio, tomei a decisão de nada fazer. De deixar o processo imperar, de esperar as areias esfriarem, os dias, preguiçosos, formarem uma decisão.

Semler fez também a rota de Marco Polo, um dos primeiros ocidentais que percorreu a rota da seda. Dessa viagem ele narra algumas experiências bem peculiares, como viajar num avião lotado de fundamentalistas armados, e algumas engraçadas, como uma viagem que fez por uma rodovia onde não se sabia qual era a mão de quem. Sorte ter sobrevivido.

O Reino de Mustang, que foi extinto em 2008, também foi uma de suas viagens. Situado no Nepal, é um local de difícil acesso, e poucos são os visitantes. Ele teve a doença da montanha durante a subida, passou alguns perrengues, mas chegou ao seu objetivo.

Os livros

No livro, ele comenta também sobre seus dois livros anteriores.

No Virando a Própria Mesa, ele cita o sucesso duradouro do livro, que perdurou por muitas semanas na lista dos mais vendidos da Veja. E a enxurrada de palestras que se sucederam após o seu lançamento.

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Virando a própria mesa.

Sobre Maverick, o livro foi escrito numa fase em que Ricardo queria saber se era possível a um brasileiro escrever para o mundo. Depois de muita pesquisa, testes e revisões, seu livro foi lançado nos EUA e depois em mais de 134 países, traduzido para 34 línguas. Para apresentar o livro para a imprensa pelo mundo, Ricardo fez uma maratona de viagem de 108 dias para 86 cidades.

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Maverick. A capa e todo o livro tede de ser pensado para vender em outros países. Ele recorreu a profissionais dos EUA para assessorá-lo na produção do livro.

As empreitadas

Ricardo é obcecado por aprender. Fez um curso de leitura dinâmica pois queria aumentar sua eficiência e ler mais. E aumentou muito a quantidade de páginas lidas em uma hora.

Estudou antropologia, artes, teatro (escreveu até uma peça, com o Raul Cortez como ator principal); Teve um programa de entrevistas numa rádio, em horário nobre, onde entrevistou grandes nomes da política e do mundo empresarial; Chegou a pensar em entrar para a carreira política, onde filiou-se ao PSDB e por pouco não lançou sua candidatura a prefeito de São Paulo. Mas nesse período visitou praticamente toda a cidade, conversando com gente de todas as classes sociais. Ele cita que ali, de verdade, entendeu a profunda desigualdade que existe em nosso país (claro que reconhecendo estar do lado bem mais favorecido).

Lumiar

Seu projeto educacional audacioso. A Lumiar surgiu pois ele não concebia como a escola podia ser ainda tão retrógrada. Os métodos de ensino propostos nas escolas públicas não são bons, nem nas particulares, pois a essência é a mesma.

Ricardo começou a se especializar no assunto. Leu todas as referências sobre educação pelo mundo, viajou para EUA, Europa, buscando experiências de sucesso. No Brasil, buscou especialistas e discutiram, por dois anos, uma estrutura de escola que permitisse às crianças uma forma eficaz de aprender e de se socializar.

Em 2002, foi criada a lumiar. No livro ele detalha bem os conceitos envolvidos – tutores, mestres, mosaico. Veja o vídeo abaixo para entender melhor.

Em 2015, a escola foi reconhecida como uma das 12 escolas mais inovadoras do mundo pela Unesco, Microsoft e Stanford University. Nada mal, não?


Muito obrigado Ronaldo!

Como são as coisas. Um salva-vidas me apresentou um livro, despretensiosamente, eu conheci mais um cara incrível e trago a você a história de um grande empreendedor brasileiro. Espero que ela te inspire a seguir seus ideais, a acreditar mais em você mesmo e fazer a diferença! E muito obrigado ao amigo Ronaldo!

Termino com uma frase do Ricardo que representa o seu jeito de pensar:

Aprendi a ser persistente, a esperar os verdadeiros resultados, em vez de contar com o “bom-senso” das pessoas e da sabedoria popular. Afinal, o bom-senso é necessariamente o senso comum, e o senso comum é, por definição, não-inovador.

Um abraço!

Melhorar sua vida financeira só depende de você!

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