O maior risco do Tesouro Direto

Olá,

O que podemos esperar dos nossos investimentos? O Brasil é confiável? Investir no Tesouro Direto é perigoso? Há risco de um calote da dívida?

Eu já te adianto que é possível sim um “calote”. Não como um confisco ou uma negação ao pagamento, mas um calote disfarçado, utilizando para isso a inflação. Continue lendo o artigo e vou te mostrar que até títulos atrelados ao IPCA podem sofrer com a inflação.

Eu estou lendo um livro chamado O Capital no século XXI, de Thomas Piketty. É um livro bem extenso, mas que aborda assuntos sobre economia de maneira bem didática. Recomento a leitura.

Nele, o autor explica como a dívida pública de muitos países evoluiu ao longo dos séculos, desde o século XVIII até os dias atuais.

Há muito tempo governos têm utilizado dinheiro emprestado para financiar gastos. Se o governo arrecada menos do que gasta, é preciso recorrer a empréstimos. Uma das formas de se conseguir isso é emitindo títulos públicos, que podem ser adquiridos por empresas ou pessoas físicas. No Brasil, a aquisição de títulos públicos por pessoas físicas é feita através do Tesouro Direto.

Comprar títulos da dívida pública é um investimento seguro?

notas_real

Na minha opinião, dentre todos os riscos envolvidos nos investimentos em títulos públicos, o maior deles é a INFLAÇÃO.

A inflação é, sim, o grande risco, e isso vale para qualquer produto financeiro, inclusive o tesouro direto.

Mas e quanto aos títulos atrelados ao IPCA? Se eles pagam uma taxa fixa mais a inflação, então estão seguros…

Aqui está uma questão muito importante. Todos os títulos são impactados pela inflação. Sem exceção.

Adquirir um título que esteja atrelado ao IPCA pode dar a impressão de que você está protegido… cuidado! Com inflações muito altas, o rendimento é substancialmente reduzido, por conta do imposto que é pago sobre TODO o rendimento.

Para entender o que eu estou querendo dizer, veja as simulações a seguir.

Observação: A memória de cálculo dos números apresentados está mais abaixo. Caso queira verificar, pode clicar aqui e conferir todo o detalhamento.

Vamos analisar três modalidades de investimento: Poupança, CDB e Tesouro direto atrelado ao IPCA:

– Poupança: taxa considerada: 6% ao ano;

– CDB: Vamos considerar um CDB que pague 95% do CDI, e vamos dizer que a taxa CDI média esteja em 10% ao ano;

– Tesouro direto: IPCA + (NTNB Princ). Taxa de juros contratada: 7% ao ano;

– Capital inicial: R$ 50.000;

– Tempo de investimento: 30 anos;

– Aportes mensais: não há;

– Imposto de renda ao final (todas as aplicações com mais de 2 anos): 15%.

Com os valores apresentados acima, caso não houvesse inflação no período, teríamos:

Rendimento total:

Poupança (taxa líquida 6% a.a): R$ 287.174,56

CDB (taxa líquida 8,08% a.a): R$ 513.721,01

Tesouro Direto (taxa líquida 5,95% a.a): R$ 283.138,44

Perceba que, num mundo sem inflação, a melhor opção seria investir no CDB, considerando as configurações acima definidas. Na medida em que a inflação aparece nas simulações, o cenário se altera, mas há perdas reais para todas as aplicações, inclusive para o tesouro direto atrelado ao IPCA. Veja o gráfico abaixo, que compara os três investimentos, com inflações variando de 0 até 20% ao ano (no momento que escrevo o artigo, a inflação está em 10,7% a.a no acumulado de 12 meses):

Evolucao_Investimentos_Inflacao

 

Veja que o título atrelado ao IPCA protege mais contra a inflação, mas ele também será afetado caso a inflação comece a aumentar muito. Esse é chamado CALOTE BRANCO. A inflação vai zerando a dívida pública. Países europeus praticamente zeraram sua dívida pública no período entre guerras (1914-1945), com inflações entre 10 e 12% ao ano.

No gráfico, aparecem simulações da inflação até 20% ao ano. Veja que, com inflações maiores que 6%, a poupança já apresenta rendimento negativo. O CDB começa a dar prejuízo com inflação média de pouco mais de 8%. Não está sendo mostrado no gráfico, mas com uma inflação de 66% ao ano, o Tesouro Direto IPCA +, nas configurações acima, passaria a apresentar rentabilidade negativa, ou seja, em 30 anos, você teria menos de R$ 50.000 de montante final. É um cenário bem absurdo considerar uma inflação tão alta ao ano, mas, infelizmente, não é impossível.

Nesse ponto eu quero chamar sua atenção: Mesmo que você esteja pensando numa estratégia de médio ou longo prazo adquirindo títulos atrelados à inflação, tenha em mente que esses títulos também podem sofrer muito com inflações altas. Mas, como você pode ver, é um investimento que te protege de perdas grandes, quando comparado a outras modalidades de investimento.

Resumindo:

Sua preocupação maior com relação ao tesouro direto deve ser a inflação. O governo pode dar um calote nos nossos investimentos se a inflação for ficando cada vez maior. E nem os títulos atrelados ao IPCA estão imunes!

 

Um abraço!

************

Memória de cálculo:

Fórmulas utilizadas:

Taxa nominal: é a taxa bruta do investimento (podemos dizer que, nos casos dos investimentos em CDB e Tesouro, é a taxa obtida após o desconto do imposto de renda e taxas de custódia e administração. Para as simulações, desconsiderei as taxas, aplicando apenas o imposto).

Taxa real: é a taxa descontando a inflação no período. Para obter a taxa de juros real a fórmula é:

taxa real = (1 + taxa nominal)/(1 + inflação) – 1

Considerando, por exemplo, uma taxa de inflação média de 10% ao ano durante todo o período do investimento:

– Poupança:

Taxa nominal: 6%

Taxa real: (1 + 0,06)/(1 + 0,1) -1 = -3,64% ao ano

Para um montante inicial de 50.000 e uma aplicação de 30 anos, o montante final seria de R$ 16.457,56

– Tesouro direto:

Taxa nominal: (1 + 7% (taxa contratada))x(1 + 10% (inflação)) – 1 = 18% – 0,15*18% (IR) = 15,05%

Taxa real: (1 + 0,1505)/(1 + 0,1)-1 = 4,59%

Para um montante inicial de 50.000 e uma aplicação de 30 anos, o montante final seria de R$ 191.964,93

– CDB:

Taxa nominal: 95% do CDI (10% a.a) = 9,5% – 0,15*9,5% = 8,08%

Taxa real: (1 + 0,0808)/(1 + 0,1) – 1 = -1,75% ao ano

Para um montante inicial de 50.000 e uma aplicação de 30 anos, o montante final seria de R$ 29.440,61

O gráfico acima é a aplicação desses cálculos, variando a inflação entre 0% e 20% ao ano.

Melhorar sua vida financeira só depende de você!

Deixe uma resposta